segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eu sou canção



Foi isso que conclui. Posso dizer que não era MPB. Mas é próximo disso. A língua é o português. Claro, de viés. No word dizia português brasileiro, gostei. Minha pátria é minha língua, fala mangueira. Tudo começou com meu gosto de escutar música. Ficar cheio de sensação. Meu pai também sentava comigo para apresentar um disco ou contar histórias. Eu ficava vidrado nos discos dele. Livros, filmes e discos e deixem que digam que pensem que falem, eu não tô fazendo nada, você também.
      Virou um tipo de obsessão. Consumiu minha linguagem. Tudo era frase feita de canção. Meu pensamento pensava canção. Para cada momento uma canção, com tom de vinheta de rádio. Começou a me preocupar, mas eu amava, como amava algum cantor. Cantei, cantei demais, até ficar com dó de mim. Escutei e prestei atenção em tudo que eu podia. Aos poucos, entendi que uma palavra poderia desencadear o processo da memória. Às vezes um som, palavra que nem tornou ainda, e como desenho sonoro, trazia uma frase musical e logo uma nova canção. Estaria o mundo todo descrito nas canções. Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção?
        De um prazer de lembrar e saber de cor, passei a constituir um tique nervoso e perturbar as conversas. Eu cantava por cima do diálogo. Fazia trocadilhos baseado nas canções. No início, eu conseguia esperar certo ponto final e ai sim cantar, mas aos poucos eram tantas as conexões que eu precisava falar nas vírgulas também. Como você pode notar estou melhor na escrita. Música é som. A escrita é mais silenciosa, mas de repente vem. Mesmo eu no meu automóvel. O profundo silêncio da música. Ainda na época que eu sentia prazeres controláveis, eu entendi que Caetano e Milton estavam pra mim como oráculos. Eu tinha uma pergunta e uma letra aparecia para me indicar um caminho. Claro, só sinalizava, eu interpretava. Um tarô sonoro. Eu sonhava acordado, um jeito de não sentir dor. Nem tão Cazuza assim. Os dizeres poéticos dos dois primeiros me arrebatavam mais. E ainda é assim. Como ver o mar, a primeira vez. Aos poucos, veio o Gil com muita força. Imagina que cada um desses são centenas de canções, poemas intensos, rezas, lamentos, alegrias que moram no ar.  
        Chega uma hora que a gente se perde. Rir pra não chorar. Não se esqueça de mim, não se perca de mim, não desapareça, e eu não mais falava com minha linguagem. Dizia com clichês, colagens, restos de canção. Meu coração não se cansa. A casa lá na fazenda. Contra a luz do sol não tem argumento. O sol há de brilhar mais uma vez. Uma coisa puxa outra. O mais profundo ficava sendo a superfície. Com vários pontos de vista. Óculos escuros para minhas lágrimas esconder. A rima é vibração mágica concreta. Quantas não são as rimas em ão. Ou em ado. Particípio passado. Na prosa de Joyces e Rosas, nas textualidades, tramas textuais, onde o ponto, a costura deve ser seguida, senão não tece. Aranha tece puxando o fio da teia. Muita gente desconhece ô lara viu, muita gente desconhece. Eu agradeço ao povo brasileiro, mas tudo é muito mais. A língua deixou de ter território, mas tem limites. Eu sabia que as possibilidades sim são infinitas. Sim, mesmo com minha perdição, eu criava cada vez de novo. Por um momento meu canto contigo compactua. Lua. Lua. Lua.
      Em determinadas épocas uma saída era estar sempre numa roda de violão. Cantar junto com todo mundo. Quanta emoção! O importante é que emoções eu vivi. Mais do que eu, como nossos pais, a tristeza que é senhora desde que o samba é samba. Samba que na minha terra deixa a gente mole. E cria a moral: quem não gosta de samba bom sujeito não é. Eu estava direto no samba. Bamba, bom. Ê semba ê, semba ah...solução por um tempo, senhor tão bonito, tempo, tempo, tempo. Nos dias quentes, sempre tem samba bom. Se fizer bom tempo amanhã, eu vou...chove chuva, chove sem parar. Benjor sempre foi alegre. Mesmo quando o seu amor o deixava. Eu gosto dela mesmo assim. Um que ficou tipo eu foi o Bosco. Vazia rabo de tatu, língua de porco, belzebu, se bem que devia ser coisa do Aldir. Samba bom. Samba rebuscado e barroco. Eu voltava cantarolando algo quando acabava uma roda. Ali estava em casa, adorava a minha casa vive aberta, abre fecha as portas do coração. O mestre Vinicius. Às vezes ficava fossa, às vezes bossa, às vezes só charme, melodia gostosa e pensamento na paisagem do Rio de Janeiro, que continue lindo!           
       Estou morrendo de saudade. Como vocês estão vendo, hora ou outra vialinguagem torna louvação. Louvo a amizade disso que escrevo agora que comigo há de morrer. Adeus, vou pra não voltar. Sei que vou sozinho. E assim vejam vocês as cristalizações. Belas. Lindas mais que demais. Sabe gente é tanta coisa que eu não sei dizer. Toda dia ela faz tudo sempre igual. Não confundam, a mulher com minha viagem. Falo do eterno retorno. Pequeno da linguagem. Sempre novo, sempre malandragem, e eis o malandro na praça outra vez. Bate outra vez. Já vai terminando o verão enfim. As rosas não falam. Eu me perdi na selva de pedra. Tente outra vez, hahahaha...elas conversam entre si. Na escrita, toma forma de uma coisa automática, tipo surrealista, porém diferente por conta da poética das letras. São de sentido, mesmo que cinematograficamente entrecortadas. Algo que se persegue, encaminha, arrasta, para uma paisagem bem nossa. Nossa está alargando. Quem é nós?
        Sabe que com o tempo, as canções dos amigos também passaram a me compor, mais próximos, minha geração, também passei a criação. Geração coca-cola, escapuliu. Geração graveola. Outras cidades e Pra lá do radar da paranóia. Os moralistas estão chegando, que vem colado nos alquimistas estão chegando. Jamais se submeta a mim, eu posso te escravizar. Vi então uma época que renovava as frases, com um efeito menor, entre estados novos d´alma. Nem sempre amigos de outros estados sabiam, talvez mais múltipla, talvez mais pulverizada. E quando estive, não me vi, era a paisagem. No carnaval, te conheci, transcendental, te seguir...
       Nela estava uma possibilidade de comunidade. Das mais fortes, esta linha que me conduz, não é a mesma para outros e também o é, interseções muitas, referências em comum. É o que pode jogar mundos no mundo. Ou todos numa pessoa só. Ele quem é ele, esse tal de rock´n´roll. E meu relógio parou. Tradição. Conheci uma garota que era do babarbalho, uma garota do barbulho. Namorava um rapaz que era muito inteligente. Comportamento. O que será que será? Um gigante como Homero, cantado na lira desvairada em nome de um tal pau-brasil, que eram vários, variadas árvores, floresta tropical. Beirava, estou ciente, ao louco, mas louco é quem em diz que não é feliz e eu continuava. Independente da minha vontade, um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo se for por você. Você. Quantas vezes você. Você viu só que amor. Só tinha de ser com você. Você abusou. E quem, quem também. Quem? Quem te viu, quem te vê.
        A psicanálise também entrou no amálgama. O afreudisíaco Lacan confirmava a atração das palavras. Ainda mais com o som. La langue, la music avant toute chose. Uma letra escrita na estruturação do menino do rio. Quando eu te vejo, eu desejo, seu desejo. A poesia língua nossa mãe, pai da ordem, terra. Sem ti me consumiria a mim mesmo eternamente e de nada valeria, acontecer deu ser gente e gente outra viagem, diferente das estrelas. Não é que eu seja sem rumo, sem norte, sigo a meta, tenho uma estrela, coração de poeta. Junto no cancioneiro dos estados de alma da paisagem. Quem sabe de mim sou eu, aquele abraço. Mal secreto. Uma canção capaz do olhar agudo da teoria. Que via o que não se via, comovia mais que tudo. A verdade da repetição do prazer de ouvir o que se diz. Concretamente irmãos campos, suprimindo as ideias e as outras paralisias, pelos roteiros.
       Canto indígena que pelo silêncio dizia. Então não é só de português que se vivia. Ninguém ouviu o soluçar de dor no canto do brasil. Negro nagô. Canto ritual, espiritual, canto antes tudo. Universal. Grito, urro primal, Guiné Bissal, Moçambique e Angola. Maxakali, Huni Kuin, Yanomami. Cantar é escrever o mundo com a voz. Conversar com as plantas e animais com a voz. Imitar o pássaro. Txaná. Uma pássaro que sabe o canto dos outros é o que quero ser. Sem direito autoral. O canto que cura. Cantando eu mando a tristeza embora. Quem canta seus males espanta. Om do todo. On. No início era o canto e se fez verbo. Fortalece o canto em português uma melodia da herança.
       Eu um simples corpo, vazado pelo ar, preenchido pelo canto, recheado de palavras. Não havia mais como escapar. Preso ou livre. Constatei que era isso. Deuses escolhiam os caminhos guiando o sentido por uma complexa trama entre o som, o silêncio e a palavra. Aedos, trovadores, rezadores. Um chão vinha comigo, muita além da verdade. Cancionava-me. Quando não havia de jeito nenhum uma frase melolavra que dissesse o que meu corpo precisava, faltava algo, e quando de muita intensidade, pulsava e ainda pulsa um relevo que misteriosamente surgia. Algo ensinou. Na incompreensão eu não me sabia. Diluído canto. Eu sou canção.        

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Argola dourada




O sonho sempre começou num palco vazio. Uma caixa preta vista da platéia. Da direita para a esquerda passava voando uma argola dourada. No início ela passava lentamente. O som que ela fazia era grave e contínuo. Vrum... passou mais uma vez. No decorrer da noite, o processo se tornava um acontecimento sem sentido, um pesadelo. Aos poucos a argola ia acelerando sua passagem pela cena sem parar.
Durante anos, aquele pesadelo me acompanhou. Eu só tive consciência dele na adolescência. Ou seja, eu sonhei aquele sonho diversas vezes, sofri noites inteiras, sensações horrorosas que prejudicaram meu sono e eu nem sequer tinha consciência daquilo.
Desde a minha descoberta daquele companheiro onírico, eu me peguei diversas vezes pensando nele. Já não havia tanto peso em lembrá-lo. Eu gostava um pouco. Achava muito surreal. Que era aquilo? Pra quê aquele sonho? Eu não encontrava dicas em nenhuma fonte de onde ele teria surgido. Não havia elementos para associá-lo ao meu dia a dia. De toda maneira, era claro pra mim as noites que aquele sonho me habitara. Eu não acordava nessas noites, mas elas eram conturbadas, eu dormia pior nelas. Já durante o novo dia, eu não podia me lembrar de nada, então o sonho parecia não influenciar minhas impressões. Eu não daria a ele um sentido, ou um porquê, eu só me encontrava cansado no dia. Talvez por isso, rememorar no pensamento aquela época, a época deste sonho, não era ruim.
Algumas vezes, numa mesa de bar ou jantar, eu contei contente este sonho, entendendo que estava ali um fato extremamente surreal, buraco onde nos desconhecemos, homens da multidão. Até que um dia, vendo o documentário Povo Brasileiro sobre a obra de Darcy Ribeiro, vi a imagem da argola. O capítulo é sobre os negros e a relação com a África. Provavelmente, o símbolo de algum orixá. Ao som de um berimbau ancestral, eu me iluminava. Estava ali uma imagem que minha mente produzira em mim por muitos anos. Era ela. Ela existia. Fiquei por longos dias impressionado com a descoberta. Agora, o sonho não podia ser considerado completamente surreal. Ele estava calcado numa letra, numa cultura, uma tradição gigantesca. De alguma forma eu fazia parte, eu um fragmento da grande África. A experiência como um todo ganhou mais alegria. Mais leve e gostosa se tornou aquelas lembranças dos sonhos. Numa performance do grupo 1banda3, criado com a amiga Brisa e o querido Felipe José, pude projetar a imagem numa cena.
Já mais recentemente, me interessei bastante pela literatura grega antiga, principalmente os antigos filósofos conhecidos como pré-socráticos. Dentre as várias teorias, uma me chamou a atenção. A teoria de Empédocles, pensador que também era médico e discursou sobre a existência do ar e sua passagem pelo nosso corpo, a inspiração e a expiração, fato que nos alimenta de energia. Em Da natura, em trecho citado por Aristóteles, ele diz que assim todos inalam e exalam: em todos há, sem sangue, canais de carne à superfície do corpo estendidos...
Simplesmente ar. Nós somos um corpo vazado de ar, um ser que respira e isso é muito. Não paramos por enquanto houver vida de inspirar e expirar. Não saía da minha cabeça uma imagem de um corpo perfurado e transpassado pelo vento. E dali surgia a força motriz, dali surgia a música. Um corpo flauta, como num mito indígena para o surgimento da música.
A respiração sempre foi uma ação que eu gostei de prestar atenção. Algumas vezes, tentei acompanhar cada pulsação como se eu estivesse dominado os atos involuntários dela. Aquilo era aflitivo. Como ator, dediquei dias da minhas vida fazendo exercícios vocais e tentando entender o diafragma. Ele é a cinta que move ar na nossa barriga. Cheguei a dedicar um capítulo inteiro de um livro de poemas para a respiração, função fundamental.
Um dia me encontrei um pouco febril e, por conta do nariz entupido, tive dificuldade para respirar, coisa normal de uma gripe. Numa tarde fria de inverno, resolvi ficar deitado com preguiça de qualquer coisa. Fiquei pensando nos meus canais respiratórios. Procurei sentir minuciosamente minha narina para compreender onde ela entupia e como eu poderia reverter a coriza que me incomodava. Dependendo do modo como eu me deitava, uma narina voltava a ter uma boa passagem de ar e a outra entupia. Comecei a pegar no sono e entrei num certo estado de vigília. Foi quando tive um insight, o segundo deste texto. 
A dificuldade de respirar me causava um mal estar muito familiar. De acordo com as variações que minha inspirações e expirações me impunham, eu sentia o peito cheio, pequenas dores na cabeça e cansaços corporais. Aos poucos me lembrei dos meus sonhos com a argola, não cheguei a sonhar completamente, mas o pouco que ela surgiu pra mim, na pulsação doentia que eu sentia, percebi que ela estava relacionada com minha febre. Logo recordei que várias vezes, nos períodos em que eu sonhei continuamente o sonho da argola, eu estava febril e um pouco gripado. Eu entendi que por algum motivo, que eu não consigo compreender bem, essas variações da respiração é que coordenavam os movimentos da argola em meus sonhos. Havia uma relação do desconforto estar presente sempre que o sonho vinha ou sempre que o sonho vinha, havia necessariamente um desconforto. De alguma maneira a argola fazia parte de minhas narinas e portanto da minha respiração.
O sonho há muito tempo não retorna e creio que ele continua misteriosamente intrínseco a mim. 

  

quarta-feira, 27 de maio de 2015

No mundo da rede imaginauta



Começarei a dizer deste grande amigo contemporâneo pela palavra-chave do curso no qual eu o conheci: imaginauta. A imagem de um internauta. A imaginação de um astronauta: GHustavo Távora. Um alucinético que com sua energia pernamundana inflava a todos que o escutavam. A partir da fotos, aplicativos simples e gratuitos de internet  e uma poética inventiva, ele criava blogs, instalações, performances. Tudo posto em rede e de maneira rizomática. GHuga se apresentava no ano de 2006 como uma realização de um mundo em rede possível. Viajando com suas oficinas por onde fosse, sempre também no plano de águas virtuais, ele se mostrou um cibernomade, um desterritorializado, num planeta mediado pelas imagens e completamente conectado para o bem, pela a proliferação de encontros e criações múltiplas. E todos que eram tocados por ele se tornavam também Imaginautas. Sou um destes.
                Aos poucos nos aproximamos e pude conhecer melhor aquela máquina criativa. Dedico este texto a desvendar os princípios que regem a engrenagem deste devir continuo. Em um dia pude ver GHuga explicando pelo três dispositivos criativos em sequência. E no decorrer de nossa amizade, que já chega a quase 10 anos, várias foram as vezes que dias como esse se repetiram. GHuga cria constantemente com a objetividade que o rodeia.
 No primeiro curso que realizei com GHuga, antes de nos tornarmos parceiros, ele me apresentou diversos dispositivos. O Horablogs é uma sessão de projeção, onde blogs são apresentados de uma forma cinematográfica e não como uma palestra didática. Em seguida conheci o Happinghours. Acontecimentos, happenings como happy hours, fins de tarde, em que a criatividade pulsante de GHuga e seu grupo vem a tona. Depois ele mostrou o flickrboomboom. Apresentações de fotografias projetadas diretamente do flickr. Foi o máximo, como diria ele. Cada pessoa abre seu flickr e, retirando a experiência do flickr da individualidade, cria um evento muito interessante e gostoso: infinito. E assim foi: CelulaMATER, Fishmob, Var_all, Pé-de-livros, Jard_imagens, Graffiti in the Rain, Com_Tato_íntimo, PIRACEMAcriativa, Fiquepeixe, Fotosinta-se e assim por diante. Neste momento ele deve estar criando um lance novo. Correlacionado a cada nome destes, Ghuga cria um imagem-conceito que já defini um caminho, com teor de blog. Como se a palavra, a imagem e a web não pudessem ser separadamente. Está ai um grande campo imagewordweb.  
                A criação de GHuga não parece surgir de uma teoria. Não existe uma metafísica por trás de seu pensamento. Ele vem de um pensamento concreto, no sentido elaborado por Lévi-Strauss. Da situação concreta, da palavra concreta, do objeto. Um artista concreto, verbivocovisual. Sem definições a priori, um índio cibernético. GHuga é um bricoleur. Junta palavras, neologismos, com imagens e tecnologias. E desta junção nasce um conceito novo, um acontecimento, uma performance, uma instalação. Nada tão estanque que não possa fluir. Aliás, esta é uma palavra muito usada por GHuga. Fluir. Nenhuma criação dessas deixa de fluir. Elas vibram de acordo com o contexto. Dependendo da necessidade cria-se um novo dispositivo na hora. GHuga entendeu por experiência própria a fluidez do signo. A superficialidade da linguagem. Navega sabendo que o mais profundo é a pele. Desliza uma palavra, uma imagem para um significado outro. Se quer uma flor verde, verdeja a flor. Uma arte tão total que se assemelha a vida num ritual ético-estético. Imaginautas são uma comunidade. Expansiva como sempre desejou GHuga que a fotografia fosse.

É difícil por isso definir o que é o trabalho dele. Artista? Educador? Poeta? Designer? Performance? Um tecnólogo? O fato é que ele perpassa por tudo, não se cristaliza. Esta sempre em devir e pregando a multiplicidade. Adoro quando ele diz que seu método é “na doida´s  methodology”. O início de sua formação está ligada ao ensino de língua inglesa, mas ele precisava ampliar o esquema sala de aula, pois via que o mundo era mais que quatroparedes, mais do que um esquema aulaexpositiva. Sabia que a escrita não pode ser mais só alfabeto e entendeu um mundo de grafias. Fotografia, Coreografia, Cinematografia... Queria que a pessoa se expusesse criativamente, aprendendo enquanto se descobre. Chegou ao osso do conhecimento: a criatividade. Jogou-se na linguaviagem pela beleza tal qual a vida fluindo.  E quando lhe perguntei o porquê dele não expor suas belíssimas imagens numa galeria, o que lhe daria mais rentabilidade e status de artista, por ser um formato mais convencional, ele respondeu que prefere não caminhar na direção óbvia, o caminho do poder que se instaura, nas Redes e nas Ruas. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Amigos poetas à Kerouac

                Nós, os Vagabundos Iluminados, somos um grupo de escritores que tem sua poética visceralmente ligada às nossas experiências pessoais. Antes de poetas, nosso grupo se reuniu em torno de uma amizade juvenil que começou na década de 90 em Belo Horizonte. Um amigo apresentou um amigo ao outro e os gostos em comum pela literatura e pelas artes aproximou nossas vidas para a eternidade.
                 A tomada de consciência de que éramos um grupo de poetas veio, é claro, com nossa devoção a escrita como uma elaboração de nossas sensações e impressões do mundo em que vivemos e o que criamos para nós mesmos. Mas também surgiu a partir do conhecimento e a identificação coletiva com diversas estéticas e seus modos de agir. Podemos citar assim o amor pelo Rock n' Roll, a dose extraforte de Nouvelle Vague e a paixão pela literatura de Fernando Pessoa, assim como várias outras correntes estéticas.
               Embora não possamos determinar uma hierarquia de importância dentre essas várias estéticas citadas acima, uma em especial deve ser ressaltada neste projeto: a poesia desenvolvida pelo Movimento Beat nos Estados Unidos. As viagens nômades, as vivências lisérgicas e as atitudes subversivas do grupo formado por nomes como Jack Kerouac, William Burroughs e Allen Ginsberg mostraram uma escrita que se fez da própria vida destes escritores. Tamanha foi a identificação do nosso grupo com a vida/obra desses autores que passamos a nos autodenominarmos Vagabundos Iluminados em referência a um livro de Jack Kerouac chamado Dharma Bums, que foi traduzido para o português como Os Vagabundos Iluminados. No livro, o protagonista Ray Smith é jovem escritor e sua vida/obra será totalmente influenciada por Japhy Rider um jovem Zen-Budista que vive com o mínimo de dinheiro e é alheio a sociedade consumista.
                Assim, tínhamos encontrado algumas chaves para darmos aos nossos leitores. Nossa poesia, assim como a poesia Beatnik, é uma busca por algo a mais dos parâmetros estabelecidos e da sensibilidade poética que não pode ser tomada como a própria vida. Uma renúncia ao excesso, constantemente excessiva. Uma adesão total a rituais indígenas brasileiros, ao Zen-budismo e, ao mesmo tempo, reverenciando o rock mais poderoso e agressivo, sem achar que uma coisa é incompatível com a outra. Somos também antropófagos tropicalistas do samba e da poesia marginal, amantes de Baudelaire, Rimbaud e Homero. Entramos no rio que estão a corrente Beatnik e todas as outras que se jogaram no turbilhão da arte sem o preconceito das definições totalizantes, alheias a sociedade de consumo, querendo consumir de tudo material e espiritual, matando no peito a universalidade e traduzindo em uma poesia singular

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Uma dose de Martini




Era uma noite especial em Diamantina. Primavera de 2014. Depois do show “Noturno” de Marcos Braccini, eu reencontrava com um amigo: o Volum’s, mais tarde, denominado formalmente como Rafael Martini. Se não me engano fazem quase 10 anos que não passávamos uma noite juntos, claro, nesse tempo tivemos rápidos encontros esparsos, mas realmente fazia muito tempo que não exercitávamos nossa amizade.

Fomos para um bar extremamente afetivo para o Rafa, um bar musical chamado Meio Tom. O bar é de uma irmã torta dele, mas essa é uma longa história. Uso torta por conta da expressão usada na noite para definir rapidamente a relação. O importante é que eles se amam e tudo engrandecia aquele encontro. Momentos antes o Rafa havia dado uma entrevista para um documentário sobre o noturno de Braccini e dizia o quanto minha amizade com ele aproximou os dois. Tudo extremamente simbólico.

No passeio do Meio Tom bebiam várias pessoas em mesas na rua, quando ouvimos o piano no andar de cima. Eu, já um pouco embriagado, subi e logo voltei a ver aquelas mãos. Como num grande flashback cinematográfico, recordei das diversas vezes que vi aquelas mãos tocando. Primeiro foi o violão onde meus olhos pousaram sobre aquela mão. Praticamente iniciamos juntos na arte do violão. Mas o Rafa, claro, continuou estudando determinadamente. Uma cena marcante pra mim aconteceu numa noite em que ensaiávamos na casa dele no Jaraguá, nos idos de 1999, para a banda que tínhamos no Colégio Técnico onde estudávamos. O objetivo era tocar a música Haiti de Caetano e Gil. O Rafa trabalhava firme para tirar a canção e eu olhava sem entender bem os caminhos que ele percorria. No fim, depois de algumas idas e vindas, cantamos juntos emocionados. Nem sei se sabíamos a grandeza daquela letra.

Sempre foi mágico ver o Rafa tocando, não sou só eu que penso assim. A torcida do Atlético e do Cruzeiro, caso conhecessem sua música também concordariam comigo, mas não acho que é isso o que interessa pro Rafael Maritni. E sim o que Hermeto está fazendo, seu amigo Felipe José ou o Gustavito. Quem está compondo o quê, com que qualidade. O Rafaé antenado em tudo que acontece ao seu redor e com grande sensibilidade sabe dialogar. Sempre fiquei encantado como ele falando de músicas populares, canções simples, que eu não imaginaria que ele escutasse. Como um júri de festival da vida musical que analisa a harmonia e a melodia do que se produz por aí, mas sem competição, só deleite, intercâmbio e fascínio.

Destes 10 anos pra cá o cara arranjou uma sonora paisagem nova para BH. É um monstro entre aspas. Maestro da geração. Impressionista como um Debussy, um Ravel ou mais brasileiramente como Tom ou Noel. Gotas, ventos, sensações, preguiça de dar Sono, plainar. O Motivo do Rafa dá gosto. Engrandece o estado da música entre nós.

A mão que eu falava continuava tocando piano no Meio Tom. Naquele momento o Rafa tocava Led Zeppelin. No Quarter? Uma mística nos envolvia. O Led que ele tornou-se cover ainda no colégio. Cantava como ninguém. Quem diria. Abalava o saguão da escola. A primeira vez que ele apareceu pra nós foi cantando Bem que se quis, que na época bombava na voz de Marisa Monte. Claro clichê. Tínhamos 16 anos.

Mão que aos poucos, por conta de toda a sua história com o pai ausente, descobri negra. Mão grande, cheia e de dedos longos, com um formato que identifiquei em outros grandes músicos. Mão que tão ritmicamente sincopava, repicava ao piano tocando o Pato Preto, já com a banda Quebra-Pedra. Inclusive, este é um outro capítulo. Rafa e Loló. Leonora Weissmann. Se não me engano os dois se conheceram nesta época. A banda deles foi fazer uma residência na fazenda de minha família. Por lá talvez tenham composto, por lá Loló pintou árvores.

As mãos, então, passaram a mais uma música e eu já estava na sala de Tetê, a Terezinha mãe do Rafa. Lá lanchamos diversas vezes, muitas delas cantando. Ali também ensaiamos um grupo de música infantil que projetáramos. Criamos uma personagem que não esqueço: Mariana Pirata.

Lá pelas tantas da noite, a mão acelera no Jerry Lewis e as mesas cedem espaço, os corpos passam a dançar. Toda uma noite ao piano. A irmã torta só ajeitando as coisas para tudo sair o melhor possível com uma alegria com tudo. Naquela noite nossa história rememorada sem uma palavra, apenas música. Um grande filme dirigido por aquelas mãos que, graças a Deus, têm aquele coração maravilhoso para coordená-las.

quarta-feira, 19 de março de 2014


Afoxé: A Flor de lótus do tambor

Desde que escutei a primeira vez um afoxé, ou melhor seria dizer o ijexá?, me apaixonei. O souingue daquele som era, é, e será sempre contagiante. Do tipo que leva o corpo instintivamente. O fato é que eu não tinha consciência do que aquilo significava. Eu não entendia que se tratava de um ritmo ou de uma derivação religiosa, algo sagrado. Com o tempo compreendi que havia na síntese daquele ritmo-reza-estadodeespírito uma célula rítmica, o conhecido: ta tum ta, que os regentes marcam com uma mão aberta entrecortando o outro braço esticado. Hoje, sei que se trata de um cristal. Uma forma lapidada pelo tempo e por diversos povos que se constitui em algo mágico.

Tamanha elaboração, que numa primeira impressão pode não ser notada, passando por algo simples, despretensioso, é extremamente delineada, clara e forte. Assim como poderíamos dizer de um poema de Manuel Bandeira, de Hai Kais japoneses ou outros sons característicos de outras culturas. Por trás dessa aparência metonímica do ixejá, estão as histórias de várias culturas africanas, brasileiras, muita alegria e sofrimento condensados, algo que poderíamos associar ao blues norteamericano. Ouso a dizer que de certa maneira o ijexá mantém no Brasil algo que talvez o blues não tenha com tanta clareza: a religiosidade. Ou quiçá seja só uma deturpação de como eu escuto o blues hoje filtrado por um mercado de massa, coisa que ainda não acontece com os afoxés.

De toda maneira, esta pequena grandiosa mágica foi se tornando concreta pra mim quando fui pela primeira vez ao carnaval de Recife. Fui com mais alguns amigos para pesquisar música, e, especial o Quinteto Armorial,  não como um acadêmico, mas como um vivenciador. Lá pude ver um “desfile” de afoxés todos sustentados pelo formato cristalino da célula tronco mística do ijexá. Nesta noite conheci a “noite dos tambores silenciosos”, que é rezada em Yorubá. É isso Pg? Depois numa loja de Cds, junto com o amigo e arquivista Marcos Braccini, procuramos incansavelmente Cds para que pudéssemos levar conosco aquele astral para nossas casas em Belo Horizonte. Não foi tarefa fácil, naquele ano de 2003. Foi então que encontrei o primeiro disco com gravações de afoxés: o disco Afoxés de Pernambuco(alafin oyó). Não sabíamos quase nada sobre a história e a cultura que ele estava inserido, mas amávamos ficar escutando aquele toque gostoso que nos remetia a canções de Gilberto Gil e Caetano Veloso.     

Conto toda essa história para dizer que tudo estava de alguma maneira inconsciente para mim. Um gosto adormecido que acordou quando fui convidado pela Flora Rajão e pelo Rafa Gonçalves para integrar o Pena de Pavão de Krishna. Um bloco belo horizontino que tinha como base o afoxé. Salve o afoxé Ilê Odara. A partir dali, saquei que aquela força poderia ser também nossa. Como alquimistas começamos a movimentar uma matéria que de alguma maneira adormecia também em outros corações. Enriquecido pela relação que os dois fizeram com a cultura indiana simbolizada numa pena de pavão.
Nos ensaios no Quilombo do Abacateiro Oriental caiu minha ficha da beleza de versos como esses cantados por Clara Nunes:

Tem um mistério

Que bate no coração

Força de uma canção

Que tem o dom de encantar

Seu brilho parece

Um sol derramado

Um céu prateado

Um mar de estrelas

Essa imagem de um sol derramado, céu prateado, que pode ser um grupo de afoxé descendo uma ladeira e se confunde com a luz que emana daquilo, é inesquecível. Também no Ppk (como carinhosamente ficou conhecido o Bloco Pena de Pavão de Krishna) conheci a encantadora música Canto de Oxum composta por Vinicius de Moraes, que conta a história de Oxum atualizando o mito. Aos poucos, um visão do cosmo, outra que não a ocidental, por influência do afoxé, foi me arrebatando. Sem que eu fizesse uma busca consciente do caminho que me encontrei. Quero dizer, por exemplo, que a água pra mim, depois desta experiência, tem potência de Oxum. Presente na água doce, presente na água salgada. Nessa cidade todo mundo é d’oxum. Não é Raphael Sales?

No ano de 2014, além da enxurrada que são as composições e a presença do Gustavito conosco mais uma vez, também durante os ensaios, tive epifanias com a música Muito Obrigado Axé de Carlinhos Brow. Uma alegria muito grande, um espírito de gratidão misturado ao axé da Bahia. Joga as armas pra lá. Essa força sagrada que o Afoxé tem nos alimenta, não só o corpo como o espírito, se houver essa distinção corpo-espírito. Só não precisava dizer que deus é brasileiro. Como prova o Pena de Pavão de Krishna, os deuses são para além dos territórios. Por fim, só posso agradecer, desejar vida longa ao Ppk e ao afoxé.

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